Crônicas

       Todavia,  Astolfo Olegário de Oliveira era o seu nome ou Astolfo Basílio, pois seu pai chamava-se José Basílio de Oliveira. Foi depositário de fumos em corda e um dos maiores, tinha empresa de transportes rodoviários e inúmeras propriedades na cidade. Muitos filhos.  Foi  casado em primeiras núpcias com D. Anita Borela de Oliveira, mulher de extraordinário valor e sensibilidade, ambos professavam a Doutrina Espírita, sendo ela um médium de quase todas as aptidões, com um sentimento de caridade sem par; ele tinha uma das melhores e maiores bibliotecas da cidade, leitor assíduo e um orador de extrema cultura, que “conversava” com a platéia, fazendo com que todos entendessem o que falava, com aquela clareza de quem se bate um papo. Seus filhos seguiram o mesmo destino.  Dá gosto vê-los pronunciar uma palestra, seja espírita ou não.
       Sr. Astolfo era um homem de tez morena, encorpado, quase gordo, que admirava a boa mesa e não tirava o seu cigarro de palha da boca, feito de fumo forte e dando aquelas baforadas substanciais, não era bonito nem feio, mas tinha uma simpatia e um sorriso que cativava... era um sorriso aberto onde mostrava todos os dentes e, quando o fazia, seu rosto todo sorria e em seguida vinha aquele papo inteligente que não dava vontade de sair de perto, mesmo quando o horário de trabalho estava apertado.  Foi o primeiro patrão de meu pai, que o contratou como vendedor de fumos em corda para o interior do estado de São Paulo, fazendo com que meu pai adquirisse experiência, amadurecimento e fizesse o seu pé de meia para uma vida de sucesso até certa época da vida.
       Nas décadas anteriores a 1960, os mais velhos ou idosos não tinham pelo menos,  aparentemente  uma atenção  especial pelos mais jovens;  eram sisudos e,  ai de nós  jovens, que desrespeitassem ou não fossem  respeitosos com um mais velho. Ai de nós...quando conversavam,  tínhamos que ficar de bico calado, só entrando na conversa, quando convidados ou perguntados sobre alguma questão. Lembro-me,  uma vez, em minha adolescência, um senhor brincou comigo na rua e,  não sei por qual motivo,  não fui simpático com ele, não o respondi mal, apenas fui indiferente.  Quando em casa fui chegando, este mesmo senhor estava conversando com meu pai. Entrei e meu pai chegou em seguida, e me passou o maior sermão quanto à respeitabilidade com os mais velhos. Era assim a educação e. assim, deveria continuar.    Voltando ao Sr. Astolfo, ele foi vereador, por duas vezes, em nossa cidade, que é Astolfo Dutra, antigo Porto de Santo Antonio que fica na  Zona da Mata Mineira, tendo como comarca a cidade de Cataguases-MG.  Com o falecimento de sua esposa, D. Anita  os inúmeros filhos a estudar e alguns problemas comerciais, ele foi vendendo os imóveis que possuía e, com o tempo, só ficou com a sua residência... os filhos foram casando, cada um trabalhando e ajudando como podia. Já idoso,  ele contraíu uma forte diabetes que acabou levando-o ao óbito em 1975. Lamento profundamente não ter podido comparecer ao seu sepultamento, para pronunciar  poucas palavras de agradecimento pela sua cordialidade com todos e particularmente comigo.  No final da década de 50, eu ajudava meu pai em sua indústria de fumos, em todos os setores, principalmente nas vendas e entregas pela cidade e região; possuía uma lambreta e quase todo dia passava em frente à casa do Sr. Astolfo e lá estava ele debruçado no umbral da varanda, já doente, com seu inseparável cigarro de palha e sorrindo para quem passasse. O meu sorriso (dele) estava guardado sempre e isso me alegrava sobremaneira, vez que poucos idosos faziam isto a um rapaz de 16 anos...  Um filho dele foi meu colega de ginásio e 3 dos mais velhos meus professores, que herdaram o bom sorriso, também simpático mas, faltavam um “quê” do Sorriso do Astolfo...
       Hoje, tenho 63 anos, sou pai de 5 filhos e tenho 4 lindos netos e gostaria de ter para com todos, aquele sorriso, que nele incluíam varias virtudes como, compreensão, amabilidade, ternura e muitas outras que conforme a ocasião significam coisas diferentes e alentadoras.   Tenho muita saudade daquele sorriso. São poucas, às vezes, em minha vida que recebi um tão simpático e compreensivo gesto. Quando saio à rua e sinto-me naquele dia meio deslocado ou mal humorado, lembro-me do Sr. Astolfo e vou começando a sorrir para um, para outro, enfocando os mais jovens como ele fazia e também aos mais idosos para que façam como o nosso Astolfo.   Em minha vida, em seus diversos aspectos, imitei aquele sorriso e quantas e quantas portas se abriram para mim, quantas discórdias terminaram antes de começar por causa do sorriso que dei, mesmo nas horas mais quentes e tumultuadas; lembrava-me do Sr. Astolfo e o imitava.   Gostaria de ser espontâneo como ele. Mas estou tentando e sabem, estou aprendendo sempre . Querem saber mais, é gostoso sorrir, principalmente para quem precisa de um agrado, para quem está triste ou aborrecido, faz bem a gente e aos outros porque tonifica a mente e a alma.

       Que este Mundo gere mais Astolfos por aí, com aquele inconfundível sorriso e suas agradáveis e cultas palestras.

       Olhem -  isto aconteceu há quase 50 anos e até hoje sinto saudades destes tempos. Muito obrigado mesmo, Sr. Astolfo !