Crônicas

O SORRISO DO ASTOLFO

Plínio Linhares

 

       Alguns anos antes do início da Segunda Grande Guerra, no interior da Alemanha, na zona rural de uma pequena cidade, um senhor de aproximadamente 60 anos de idade trabalhava em uma propriedade rural de sua família, que distava uns 3 kilmetros do centro urbano. Diariamente, pela manhã~, para lá se dirigia, bem cedo, para os labores rurais, retornando para sua casa por volta das 17h; passava por uma estradinha de uso comum  que cortava a propriedade de Her Müller (Senhor Müller), um homem alto, magro, sisudo e de poucas palavras... que não tinha o costume de cumprimentar ninguém e mesmo de responder os cumprimentos a ele dirigidos.  Mas o Sr. Jacob, que o encontrava diariamente, sorria e dizia para ele:- Bom dia, Sr. Muller. Boa Tarde, Sr. Müller...  acostumado a não receber de volta sequer um aceno de cabeça mas, tinha educação de berço e assim o fazia sempre... O Sr. Müller era um apaixonado pela causa Nacional Socialista, movimento este que crescia vertiginosamente dentro da Alemanha, a Alemanha Nazista. Filiou-se ao partido e era um dos assíduos colaboradores do movimento e alto admirador do Führer (chefe), Adolf Hitler, a quem tinha e pelo partido uma obediência canina. Uma razão maior para não responder nem intimamente os cumprimentos diários do Sr. Jacob, apesar de alemão, era descendente direto dos judeus, que já eram as pré-vitimas dos objetivos assassinos do nazismo.  No intimo, lá no intimo mesmo, simpatizava com o Sr. Jacob, pela figura simpática e doce que ele era, pessoa calma, agradável e querido por todos, mas nem de longe ousava externar esse sentimento de simpatia que anelava intimamente. O movimento de simpatia e agregamento ao Partido Nacional Socialista (Nazismo) crescia em uma progressão geométrica dentro da Alemanha e todos aqueles que se mostravam ferrenhos admiradores eram convocados para assumirem postos de comandos na área civil ou militar,  sempre de mando ou comando sobre os cidadãos comuns e o Sr. Müller foi designado como chefe de um destacamento local de caça e prisão aos judeus que habitavam aquela região, com uma autoridade quase sem limites, inclusive quem ia ou não ser enviado aos campos de concentração e após “escolha” ( julgamento sumário) para os fornos crematórios.

       Sr. Jacob, por prevenção e medo, fez com que sua esposa, filhos, netos, enfim toda sua família saísse do país aos poucos, antevendo uma grande tragédia que acabou acontecendo. Ficou sozinho mais para despistar e tomar conta daquilo quem nem sabia se seria seu mais, mas ficou e sempre quando encontrava, cumprimentava ao Sr. Müller, que já usava uniforme nazista com o famoso monóculo e a varinha, característica do mando. Passados alguns meses o Sr. Jacob foi tambem preso e submetido a vários interrogatórios, que os nazistas tentavam obter a informação do paradeiro de outros judeus e principalmente onde sua família tinha ido, antes, é claro, do confisco de todos os bens pertencentes aos judeus. Sr. Jacob foi enviado a um campo de concentração e trabalhava nas estradas de rodagem nos arredores de sua cidade. Por ordem do Alto Comando Nazista, chegou a  determinação para que todos os judeus, com saúde debilitada e os com mais de 60 anos, fossem invariavelmente enviados aos fornos crematórios, vez que já não estariam aptos para o trabalho de servidão a que eram submetidos.

       Formavam-se filas de judeus maltrapilhos, magros, sujos e desnutridos. De frente para esta fila, ficava o Sr. Müller com a inseparável varinha, que com ela dava os sinais que os soldados obedeciam:  se para esquerda, os soldados já encaminhavam aos fornos; se para a direita (e pouquíssimas vezes isto acontecia) o preso era levado de volta às dependências do campo de concentração, continuando na escravidão costumeira. Num desses dias e numa destas filas estavam o Sr. Jacob a caminho do fim e o Sr. Müller no comando e como juiz supremo, com o poder total de decidir sobre a vida e a morte daquelas pessoas e assim fazia, como se fosse um deus.

       O momento pra o Sr. Jacob se aproximava, suava frio e tinha as pernas e braços tremendo a vista turva pelo medo (Camões, nos Lusíadas escreveu:- QUE DA TENSÃO DANADA, NASCE O MEDO...) e nenhum deles sabia do outro,  naquele momento... Chegou a vez do Sr. Jacob. O Sr. Müller teve momentos de indecisão e,  por alguns segundos, lembrou-se dos cumprimentos, sorrisos simpáticos e diários de sua vitima e por isso a ponta de bondade que existia em seu coração fez com que a varinha do mando voltasse para a direita, salvando então o Sr. Jacob da morte certa e inexorável. Sr. Jacob sobrexistiu à guerra (não se sabe como) e o Sr. Muller,  também.

Esta foi uma estória real...

Esta a seguir, também é uma estória real...

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