Angelita Marchi - Advogada

Socorro

Quando vi pela TV mais uma tsunami engolindo com voracidade tudo à sua frente o sentimento que me invadiu foi de total complexidade e impotência. As tragédias humanas, causadas por fenômenos da natureza, ou mesmo pelo egocentrismo humano têm nos levado a uma acomodação ou insensibilidade com a dor do próximo.  O sofrimento humano alheio não nos atinge mais a ponto de nos comover e nos fazer mover de nossa inércia. Não nos importamos mais. Deixamos o outro à mercê de sua própria sorte, já que temos que nos preocupar com a nossa própria.

O horror de Hiroshima e Chernobyl são fantasmas da ameaça nuclear; Auschwitz, Ruanda, Timor Leste, Bálcans, da “limpeza” étnica. O continente americano (incas, mais astecas e povos indígenas) e a Austrália (pigmeus) são provas vivas da crueldade e ganância humana.

Até quando ficaremos habituados a questões como estas? Por que nos esquecemos quando “soluções” aparecem e a “ordem” se estabelece? O que sentimos? Alívio (antes ele do que eu); preocupação (será que vai acontecer aqui/comigo?); alienação (não estou a par porque tenho visto o BBB); conformismo (o  mundo está mesmo chegando ao fim). Na verdade não estamos sentindo nada, ou nada que realmente seja motivo desencadeador de mudança na vida deste próximo. 

É preciso clamar por socorro. Deus! Tem compaixão de nós e nos ensina a ter compaixão do outro. Dê-nos um coração de carne.

Como na música de Arnaldo Antunes: “Socorro! Não estou sentindo nada.

Nem medo, nem calor, nem fogo. Não vai dar mais pra chorar nem pra rir. Socorro! Alguma alma mesmo que penada, me empreste suas penas.

Já não sinto amor, nem dor. Já não sinto nada. Socorro! Alguém me dê um coração que esse já não bate nem apanha. Por favor! Uma emoção pequena, qualquer coisa!

Qualquer coisa que se sinta. Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva. Socorro! Alguma rua que me dê sentido. Em qualquer cruzamento acostamento, encruzilhada. Socorro! Alguém me dê um coração”.

Reflitamos. Mudemos. Deve ter algum sentimento que sirva; que sirva principalmente à dor alheia. 

Socorro!!!