| Angelita Marchi - Advogada |
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É possível Viktor Emil Frankl escreveu um livro chamado Em Busca de Sentido. De acordo com Frankl, o livro tenta responder a pergunta "Como a vida cotidiana dentro de um campo de concentração se reflete na mente de um prisioneiro mediano?". Viktor, aos 37, anos já tinha um doutorado em medicina e já era um respeitado neurologista e psiquiatra. Isso antes de setembro de 1942, quando foi levado para o campo de concentração de Theresienstadt. Passou ainda por outros campos de concentração, inclusive Auschwitz. Em abril de 1945 foi libertado pelo exército americano e tornou-se chefe do Departamento de Neurologia do Hospital Policlínico de Viena e fez outro doutorado, desta vez em Filosofia. Quando acabei de ler seu livro fui pesquisar um pouco mais sobre os campos de concentração. A cada leitura e a cada imagem foi-se formando em mim questionamentos que não creio terem respostas: Como sobreviver num campo de concentração? Como acomodar, em cada uma das três camas de tábua de um triliche, nove pessoas deitadas de lado, um atrás do outro? Como alguém pode se manter vivo com 300 gramas de pão e 1 litro de sopa por dia durante meses? Como alguém pode executar trabalhos braçais pesados ao relento, sem luvas e agasalhos apropriados, se o termômetro marca 20º abaixo de zero? Como é possível continuar a viver sem saber se morreu seu pai, sua mãe, seu(s) irmão(s), filho(s), cônjuge? Como conviver com pessoas vindas de vários cantos da Europa, com idiomas e comportamentos diferentes? Como suportar a falta de higiene? Como não ceder ao desespero sabendo que perto estão quatro grandes câmaras de gás venenoso e se quase todo o dia se vê a fumaça que sai da chaminé do forno crematório? Como não ser tentado diariamente pela idéia do suicídio? Como ainda saber quem se é após o despojo da própria identidade, bens, nome passando a ser conhecido apenas por um número tatuado no braço? Como não perder a autoestima sem ver o próprio rosto no espelho durante dois anos e meio? Como é possível? E por mais que eu empregue toda minha fé e distancio-me de toda crueldade humana é quase impossível, para mim, acreditar que foi ou seria possível. E mais, ainda que sobrevivente, como deixar pra trás, firmar-se socialmente e simplesmente seguir? Procuro resignação com Dostoievski: "Um ser que se habitua a tudo, eis a melhor definição do homem". Esperança em Nietzsche: "quem tem por que viver aguenta quase todo como". E consolo em Jesus: Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados". Eu não vivi, nem em meus piores pesadelos, o que Viktor e tantos outros sofreram e sofrem. Todavia, findando mais um ano, época que nos voltamos à reflexão para (re)afirmarmos nossos sonhos e desejos, começo a reformular os meus: que em 2012, não sendo possível a ausência de sofrimento (inerente ao homem, à vida e ao cotidiano), que eu encontre força, fé, e sentido para além dele, como Viktor encontrou: "Não há dúvida de que o amor-próprio, quando ancorado em áreas mais profundas, espirituais, não pode ser abalado por uma situação de tremendo sofrimento". |
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